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É possível viver para além disto!

É possível viver para além disto!

Um filme..

24
Set19

Sempre vi nos filmes ou séries representações da vida real, principalmente, da minha vida. Por isso, adoro aqueles filmes que nos dão uma lição ou nos fazem reflectir sobre a nossa vida.

Apesar de adorar esse tipo de filmes/séries, nem sempre olhei para eles dessa forma. Talvez por estar tão focada em não pensar no que sentia, em não pensar no que acontecia à minha volta, em não pensar nos "porquês".

Quando andamos tão preocupados em sobreviver, porque foi isso que fiz durante uns bons anos, até as lições que retiramos dos filmes e séries nos incomodam.

Acho que a grande alteração começou há uns 5 anos. Quando vi o filme "O Juiz".

Para encurtar um bocadinho a história, após o divórcio dos meus pais e com umas situações complicadas pelo meio, decidi deixar de falar com o meu progenitor. Contra tudo e contra todos. Ninguém entendia o que eu sentia e todos me diziam que "é teu Pai, ainda que fosse um criminoso, é teu Pai". E eu continuei na minha vida, com a minha decisão tomada: não quero aquela pessoa na minha vida.

A pedido da minha Mãe (que hoje talvez entenda que não o devia ter feito) fui tentando dar-me com o meu pai. Mas não dava. Havia sempre alguma coisa que me afastava dele, que me levava a preferir "não ter pai" do que ter.

Até que fui parar ao hospital, nada de grave, mas levou-me a ficar internada e a minha Mãe questionou-me o que devia fazer se se tornasse grave. (penso que nesta altura os meus pais teriam retomado contacto...) Mantive a minha posição: não tenho pai, não quero que lhe contes nada do que se passa comigo.

Mas percebi no olhar da minha Mãe que aquilo era mais do que eu. Eu estava a colocar nos ombros dela uma responsabilidade demasiado pesada. Se me acontecesse alguma coisa (não que estivesse em risco, de todo!), ela seria crucificada. Seria massacrada. E tudo por uma decisão que não era dela e  com a qual ela não concordava.

Só que sou teimosa e ainda que aquele olhar me preocupasse, eu não queria o meu pai na minha vida. E pedi-lhe que não lhe contasse nada. (Mais um aparte, totalmente infrutífero, porque a minha Mãe deve-lhe ter contado assim que saiu de pé de mim, mas...continuando!)

Após a minha recuperação, a minha Mãe volta a tocar no assunto e aí já não era só o olhar que me demonstrava a responsabilidade que teria em cima, ela própria o disse. Só que nada fiz. Disse-lhe que a minha decisão estava tomada e apenas pedia que a respeitasse.

Mas a vida tem coisas engraçadas ou talvez não. Poucos dias depois desta conversa, fui ao cinema ver o filme "O Juiz" e para quem não sabe o filme retrata um filho advogado (Robert Downey Jr.) que, por ocasião da morte da mãe, reencontra o seu pai Juiz (Robert Duvall) com o qual tinha cortado relações (ou talvez, ambos tivessem cortado relações mutuamente) e descobre que o seu pai está a ser acusado de assassínio de um antigo réu e, ainda que contra a vontade do Pai, decide ajudá-lo e defendê-lo. É nesta cena que ambos curam feridas do passado e em que ambos descobrem o orgulho que têm um pelo o outro e sobre o qual nunca tinham sido capazes de falar/demonstrar.

Quando vi o filme, talvez mais pelas circunstâncias em que me encontrava, talvez porque no meu intímo eu queria "um pai" na minha vida, falei com a minha Mãe e pedi-lhe que arranjasse forma de eu me encontrar com o meu pai.

Acho que por momentos achei que podia ter um final feliz como no filme, que podia olhar para o meu pai e dizer-lhe que, independentemente de tudo, sentia orgulho nele. E achei que ele me pudesse transmitir o mesmo. 

Tudo isto foi sol de pouca dura. Quando olhei para o meu pai e nos curtos meses que me dei com ele, percebi que já não havia nada que nos ligasse (se é que alguma vez houve). Como poderia alguém que não acompanhou o meu crescimento, a minha entrada na fase adulta, entrar agora na minha vida com o papel de Pai? Nós não tínhamos nada para conversar, o que nos ligava era um passado que eu não queria lembrar. Eu não queria saber dele e, mesmo que ele até quisesse saber de mim, eu não lhe queria contar nada do que se passava na minha vida.

E aí tornou-se muito complicado de gerir. Nessa altura deixei de pensar em mim ou só em mim, acabando por manter um elo de ligação ao meu pai, para que a minha Mãe não sentisse aquela responsabilidade. 

Mantive a postura correcta, permiti entrada de pessoas na minha vida (por se relacionarem com o meu pai) que me desrespeitaram e que eu acabei por desrespeitar. Até que não aguentei mais.

E no fim, não houve, como no filme, um final feliz. Ou talvez sim, se pensarmos que hoje sei que não preciso que o meu pai me diga que tem orgulho em mim, ou melhor, não me interessa de todo o que significo para o meu pai, porque acredito que quem perdeu uma filha fantástica (modéstia à parte!) foi ele.

Pois eu hoje sei que não perdi um pai fantástico, hoje sei que não preciso "desse pai" para ser feliz. E seguir o meu caminho. Hoje sei quem são os meus, sei quem quero comgio e quem me reconhece valor. E isso hoje é o suficiente para vos dizer que a vida é muito mais que família de sangue. Que somos muito mais que o que a nossa família nos transmite ou quer que sejamos. Hoje sei que se for fiel a mim própria, a quem eu sou, estou no caminho certo. Estou no caminho para casa. E acreditem que corro todos os dias mais um bocadinho para chegar a casa. À minha casa.

 

O caminho...

19
Set19

Havia uma pessoa que andava perdida. Chamemo-la de Grey.

Grey sentia-se perdido e sozinho. 

Olhava à sua volta e sentia que fosse para onde fosse, desse por onde desse, não saía do lugar.

Sentia-se tão perdido que a única coisa que via à sua volta eram pedras e areia. Não via mais nada. Nem o céu azul, nem o sol, ou até mesmo a lua e as estrelas. 

Resignado, Grey deitou-se no cimo de uma pedra, sem saber bem o que fazer ou para onde ir.

Até que um dia, sem saber bem de onde, sentiu a presença de alguém e perguntou: 

- És o sábio de que estou à espera? 

(silêncio)

Não ouvindo resposta, Grey continuou..

- Se não fores o sábio de quem espero, podes-te ir embora. Não quero mais ninguém perto de mim, a não ser o sábio de quem espero. 

Ouviu um suspiro e a resposta surgiu:

- Não, não sou o sábio de quem falas. Mas posso ajudar-te a encontrar o caminho até ele. 

- Claro, claro. - O tom irónico de Grey era a sua maior arma - Como se eu precisasse da ajuda de alguém. E logo tua...nem faço ideia de quem és. - E em voz baixinha continuou: - não sei quem és, nem quero saber.

Do outro lado, outro suspiro:

- Acho que vives enganado com aquilo que precisas ou não. Mas tudo bem, se não precisas de mim, continua aí sozinho, perdido ou a olhar para o nada, se é assim que achas que vais encontrar o sábio. Tu lá sabes! 

E Grey, se não precisas de mim, eu vou-me embora. Boa sorte nessa tua busca! Ah, espera...e acredita, que me conheces bem melhor do que aquilo que pensas. 

Não reagiu. Como não reagia a nada que lhe era desconhecido. E quando aquela presença se foi embora, ele deitou-se a olhar para o nada, mais uma vez. E aguardou. 

Aguardou tanto tempo que já se sentia mais pedra do que pessoa. 

Só que sem saber bem porquê, nem quando, viu a imagem de uma casa. De uma simples casa. E inexplicavelmente sentiu que tinha que procurar aquela casa. Sentiu uma vontade enorme de sair dali e ir em busca daquele lugar que lhe dizia alguma coisa.

Tinha apenas que descobrir o quê, talvez fosse o sábio, quem sabe. Apenas sabia que tinha que ir. Que ali, onde estava, já não podia ficar.

Grey pôs-se em pé e procurou a saída. Viu uma porta. A saída que há tanto tempo procurava e que nunca lhe tinha aparecido.

Ah! Afinal havia esperança!

Passou por aquela porta e viu, pela primeira vez em muito tempo, o céu azul e o sol. Ah, as nuvens. E sorriu, como há muito não sorria. 

Começou a seguir caminho, ainda que não soubesse para onde havia de ir, sentia que tinha de ir para algum lado. E foi andando. Andando.

Conseguiu finalmente sair do deserto e viu água. Um rio. E aí, começou a sentir fome. 

E agora? O que podia comer? Quando estava na pedra, nem fome sentia. O que fazer agora?

Olhou ao seu redor. Tentou encontrar alguém que o pudesse ajudar. E nada. Só tinha um rio à sua frente. Sentou-se. Desanimou outra vez. 

Já não estava no deserto, agora tinha um rio. Mas voltou a sentir-se perdido. Outra vez.

E deitou-se. E sentou-se. E olhou para o céu como que a pedir ajuda. E de repente, sentiu novamente aquela presença e perguntou:

- És o sábio de quem estou à procura?

Um primeiro suspiro.

- Já te respondi que não, mas posso levar-te a ele.

- E eu já te disse que não preciso de ti para nada. Aliás, agora nem é bem o sábio que quero. Tenho fome. E aqui não há nada.

- Se não precisas de mim para nada, então vou-me embora. Desenrasca-te para aí sozinho.

- Não, espera! Sabes ao menos onde posso encontrar algo para comer?

Mais um suspiro...

- (riso irónico) ... para quem não precisava de mim, estás a pedir-me que te diga onde comer? Afinal sempre precisamos de alguém na nossa vida.

- Pronto, pronto. Se não queres dizer, não digas. Hei-de encontrar alguma coisa. Nunca precisei de ninguém para nada, também não há-de ser agora. - Respondeu Grey com ar ofendido.

O suspiro tornou-se mais forte.

- Não te posso dizer onde comeres, apenas te posso dizer para esticares o braço e pegares nessa cana de pesca que está mesmo ao teu lado.

- Cana de pesca? Para que raio preciso eu de uma cana de pesca? - riu-se! - Ou achas que me alimento com isto?

- Não te alimentas com isso, mas podes obter alimento com isso. Basta esforçares-te.

- Esforçar-me? Se consegues fazer aparecer aqui uma cana de pesca, também consegues fazer aparecer um peixe aqui. Era bem mais rápido, não? - começava a ficar farto daquela conversa. E a fome era cada vez maior.

- Bem mais rápido era, tens razão. Mas isso não era ensinar-te que para alcançares aquilo que pretendes, o tal sábio de que tanto falas, precisas de o fazer sozinho. Eu posso dar-te os instrumentos, a ti cabe-te aprender a usá-los. 

Suspirou mais uma vez e desapareceu.

Grey ficou sozinho mais uma vez. Agora com uma cana de pesca que não sabia muito bem o que podia fazer com aquilo. 

Tinha fome. Muita fome. Cada vez mais fome.

Desesperado, pegou na cana, sentou-se à beira do rio e decidiu lançá-la.

Qual não foi o seu espanto quando sentiu a cana pesada e a mexer-se. E lutou contra isso. Puxou com a força que lhe restava e viu um peixe. Alimento. Aquilo era puro alimento. E sorriu, já podia matar a fome.

Voltou a ver aquela imagem. Aquela casa e decidiu continuar caminho. 

Caminhou e caminhou. Sem fim. Depois do rio, começou a ver árvores e a ouvir pássaros. Encontrou animais. E enquanto caminhava ia encontrando algo novo. Mas a principal novidade era dentro dele. Já não se sentia tão perdido, já não se sentia tão sozinho, ainda que continuasse sem saber como encontrar aquela casa.

Um dia, já cansado, decidiu parar e encostou-se a uma árvore. E sentiu-a a suspirar.

Assustou-se. Reconhecia aquele suspiro.

E perguntou, mais uma vez:

- És o sábio que procuro?

O suspiro...

- Já te disse que não, mas posso levar-te a ele. Queres?

- Como posso eu saber que posso confiar em ti?

Um suspiro mais duradouro...

- Não sabes. Isso não se sabe, sente-se. E eu já te tirei a fome, não já? Podia ter-te deixado junto ao rio a morrer à fome.

- Ahahaha! Já me tiraste a fome? Essa deve ser para rir. Eu é que pesquei o peixe.

- Tens razão. - respondeu o suspiro. - Mas se não te tivesse dado a cana, não terias pescado o peixe e terias morrido à fome. 

- Claro, podias era ter-me dado logo o peixe, não achas? - aquela conversa cansava-o.

Um suspiro ainda mais longo..

- Se te tivesse dado o peixe, não tinhas sentido o valor do esforço. Não tinhas sabido que eras capaz de pescar o peixe. Essa é a minha função.

- A tua função? Pois...acho apenas que gostas de me dificultar a vida.

- Enganas-te. Apenas te demonstro o quanto a vida pode ser fácil, basta apenas saber como viver a vida. Tu sabes?

Irritou-se! - Mas o que sabes tu sobre mim? Não te conheço e só me apareces para conversas irritantes. Não preciso de ti. Podes ir-te embora. Eu hei-de encontrar o sábio sozinho. Nunca precisei de ninguém.

Suspirou e foi embora. Não sem antes, deixar junto dele um tabuleiro de xadrez. 

Grey olhou para aquilo e suspirou. Agora o suspiro vinha dele. Não entendia porque é que aquele tabuleiro ali estava. Nunca tinha jogado aquilo. Aliás, nem sabia como se jogava. E ainda que soubesse, estava sozinho. Não podia jogar sozinho.

Riu-se. Aquela presença que de vez em quando sentia tinha umas ideias muito estranhas. Primeiro a cana e a história de que ele é que tinha que pescar o peixe. E agora um tabuleiro de xadrez?

Estava cansado. E decidiu fechar os olhos e dormir uma sesta. E a casa voltou aparecer. Agora mais perto. Não tão perto como gostaria. Despertou. Tinha que continuar o caminho. Tinha que encontrar aquela casa.

Levantou-se e preparou-se para continuar o caminho. Só que algo o impedia de avançar e Grey não entendia o quê. 

Tentou dar um passo. E manteve-se no mesmo sítio. Tentou saltar. E manteve-se no mesmo sítio. Decidiu rastejar, mas sem sucesso.

Ouviu o suspiro. E esperou. Desta vez decidiu não falar.

O suspiro falou primeiro:

- Onde pensas tu que vais?

- Vou em busca do sábio. Não é que tenhas alguma coisa a ver com isso. - respondeu com ar irónico.

- Ah, o sábio. E como pensas chegar até ele?

- Que te interessa isso? Dizes que me queres ajudar, mas primeiro dás-me uma cana quando te digo ter fome. E depois deixaste aqui um tabuleiro de xadrez quando sabias que aqui estava sozinho.

Suspirou longo...

- Ah, a cana e o tabuleiro. Porque resmungas tanto em vez de me ouvires? Eu disse-te porque te dei a cana. Talvez me devesses perguntar porque te deixei o tabuleiro.

- Como se isso me interessasse! Apenas quero sair daqui e seguir o meu caminho.

- Pois...não te interessa. - Que pessoa tão teimosa. - Olha, quer oiças, quer não oiças, vou-te dizer: não conseguirás sair daqui, enquanto não perceberes o significado da cana de pesca e do tabuleiro de xadrez. Quando perceberes, talvez o teu caminho até ao sábio esteja mais perto.

- Já percebi, já percebi. - estava a começar a ficar zangado. - A cana de pesca serve para eu não passar fome. E o tabuleiro de xadrez? Para que preciso eu disso se estou aqui sozinho.

Suspirou, agora com mais calma, sentia que estava a conseguir alcançar o pretendido.

- Eu explico-te. Não é para jogar. O tabuleiro é uma metáfora. Tu viveste sozinho durante muito tempo. Negaste a minha ajuda quanto te a quis dar. Aceitaste a minha ajuda porque tinhas fome. Mas zangaste-te quando não te facilitei a vida. 

- Continuo sem perceber para que preciso de um tabuleiro de xadrez. - Interrompeu Grey.

- Tens de ter calma. E ouvir sem essa raiva que tens dentro de ti. Só assim poderás entender o que te tenho para dizer.

- Ok, ok. Mas despacha-te, que tenho que encontrar o sábio.

- Grey, senta-te e ouve-me. 

Sentou-se, ainda que contrariado. E sem saber porquê, focou o seu olhar no tabuleiro de xadrez.

- Durante muito tempo sentiste-te sozinho e perdido. E resignaste-te a isso. Um dia sentiste dentro de ti que devias procurar o caminho e encontraste a saída. 

- Sim, sim. Até parece que tiveste comigo o tempo todo para saberes o que estás para aí a dizer...

Ignorou e continuou. 

- Ao saíres do deserto em que te encontravas, descobriste que havia mais coisas do que pedras. E sentiste algo que não tinhas sentido antes: fome. Quando sentiste isso, ficaste sem saber o que fazer. E eu ajudei-te.

Não, não te podia dar o peixe, seria fácil demais. E a vida não é fácil. Apenas te demonstrei isso.

Quando deixaste de sentir fome, abriste-te a mais conhecimento. Porque uma parte de ti tinha sido desbloqueada. Tinhas aprendido que eras capaz de sobreviver. Sabias como matar a fome. Davas valor ao alimento. Davas valor à vida.

Não era suficiente. E seguiste em busca do sábio, o tal sábio. Sem o encontrares. 

Sabes porquê? Porque continuas sem saber o que realmente procuras. Continuas a achar que te devo facilitar a vida. Mas não, Grey. 

E aí entra o tabuleiro de xadrez. A vida é um jogo de xadrez. Ao longo do tempo vais encontrar pessoas e coisas que te vão dificultar a vida e tu tens que saber como te mexer no jogo (da vida) para sobreviveres. Às vezes precisarás de ajuda para te moveres, para te protegeres. Outras conseguirás sozinho. Umas vezes serás tu a jogar a peça que poderá mudar a vida de outra pessoa.

A vida é um jogo. Tu já tens a cana. Aquela que te ajudará na tua vida. Basta agora perceberes que podes triunfar na vida com todos os obstáculos que te poderão aparecer. Fizeste-o com a cana quando tinhas fome. Apenas tens que aplicar esse conhecimento às restantes situações. E aí terminarás o caminho que começaste. 

- E o sábio? Pensei que sabias indicar-me o caminho para o sábio. - perguntou Grey.

Suspirou, o suspiro mais longo que alguma vez Grey tinha ouvido.

- O caminho para o sábio? Encontrá-lo-ás quando souberes jogar o jogo. E aí encontrarás o sábio. E nesse dia, saberás que a tua missão foi cumprida, pois chegaste a casa.

E foi embora.

Grey ficou sozinho, pensativo. Não entendia aquela conversa. Não entendia que presença era aquela. Apenas sabia que tinha que, sozinho, aprender a jogar aquele jogo. 

Grey pegou na cana de pesca e no tabuleiro de xadrez e deu um passo. Já conseguia andar. Já não estava preso. 

E voltou a caminhar. Com a conversa no pensamento, com a ideia da casa como meta.

Grey ainda se encontra no caminho para a casa, ou para o sábio. Mas nesse caminho Grey já descobriu que aquele suspiro que ouvia não era mais que a sua intuição a pedir-lhe que olhasse por ele. 

Grey ainda está no caminho. Quando chegar ao fim, concluiu a sua missão. E perceberá que não está sozinho, porque está em casa. Porque encontrou o sábio. O sábio é ele mesmo. A casa é o seu Eu. 

 

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Raiva ou apatia, qual delas a pior?

16
Set19

No outro dia deparei-me com uma música dos Xutos & Pontapés que me fez pensar o quão estou diferente. 

A música é "Às vezes" e a parte com que mais me identifico é:

"Às vezes
Basta uma palavra
Para soltar a raiva
E enlouquecer"

Eu costumo dizer que sou uma pessoa naturalmente agressiva, talvez pela vida que tive desde miúda, tornei a frieza e a agressividade como uma protecção, a tal máscara.

Mas ao ter noção de que era essa pessoa, em momentos menos bons da minha vida, controlava essa agressividade. Tinha outras formas de o ser, não sendo directamente com alguém ou nalguma situação que pudesse afectar a outra pessoa e tornar irremediavelmente qualquer relação/situação.

E a frase da música dos Xutos & Pontapés diz aquilo que até há uns tempos sentia. Bastava uma palavra para soltar a raiva. 

Essa raiva que durante tantos anos me consumiu e que eu neguei tê-la dentro de mim.

Há uns tempos, ainda antes da terapia que decidi iniciar, mudei a minha postura. Não sei porquê, mas perante uma situação de confronto, de algo que me deixasse completamente sem chão, ficava apática. Preferia dizer à outra pessoa que realmente eu tinha errado e pedir desculpa (ainda que achasse que nada tinha feito), simplesmente porque não queria mais confusões.

Ignorei muitas vezes a dor que me provocaram. Rebaixei-me perante situações que eu achava que não deviam ter sido assim, mas algo me fez deixar de lutar por aquilo em que acreditava. Desrespeitei-me.

Alguma coisa fez com que o gatilho que despoletava a raiva não funcionasse. E fosse sempre eu a pedir desculpas, ainda que, no final, a pessoa mais magoada com toda a situação fosse eu. 

Eu não queria saber, ou porque não queria perder aquela pessoa e aceitava tudo, ou porque não queria mais guerras e deixava que a outra pessoa ganhasse a discussão.

Eu estava completamente apática.

E, tal como a raiva não era a melhor forma de lidar com as coisas, ficar apática, deixar que me rebaixassem também não o era. Era preciso encontrar um meio termo.

Acho que ainda não o encontrei.

A raiva está bem melhor, consigo falar sobre determinadas situações da minha vida sem que ela apareça para dizer "ainda aqui estou, minha amiga". Por outro lado, há situações em que me apetece explodir e não o faço, por receio de também eu ser agressora. Por saber que agir com raiva não é a melhor das soluções. Não a mais correcta.

Dizem-me ao longo da terapia que eu tenho que a mandar cá para fora, a raiva. Porque é normal sentirmo-la e temos que reagir quando o fazemos, pois um dia pode ser bem pior.

Acho que já tive esses dias, de bem pior, sabem? Houve alturas na minha vida em que a raiva me levava a querer fazer mal a quem me fazia mal. Desejava o pior, queria o pior. 

Agora não. Agora desejo aquilo que me desejam a mim e acreditem que nem sempre me desejam o melhor. E vivo bem com isso.

Depois a apatia. Se hoje lido melhor com a raiva, com a apatia está a ser mais difícil. 

Porque não entendo como posso demonstrar que valho alguma coisa como pessoa (e que valho!) se deixo que as pessoas digam o que querem, sem eu me defender. Eu bloqueio, por completo.

Por outro lado, há situações em que penso que nada fazer é a melhor resposta que posso dar.

Acreditem, eu quando gosto, gosto a sério. Quando me dedico às pessoas de quem gosto, dedico-me a 100%. E faço-o porque sou assim. Sem mais. Ou melhor, há algo que peço: respeito. 

Respeito é apenas a única coisa que peço às pessoas de quem gosto. Talvez porque nem sempre houve respeito em minha casa. E hoje isso é a única coisa que quero constantemente na minha vida.

Por isso, hoje vivo numa dualidade de sentimentos, a tentar um equilíbrio que ainda não é possível, entre a raiva e a apatia. 

A vida tem-me dado várias oportunidades de atingir esse ponto de equilíbrio, pratico-o com quem vale a pena. Tento ignorar a raiva com quem não vale.

Mas acima de tudo, tento não perder o meu tempo com quem não vale a pena. E manter na minha vida quem quer ficar. Aos outros, aqueles que se vão sem explicações, ainda que custe, deixo-os ir. A mágoa pelo desrespeito demora a passar. Mas passa. Eu já não sou aquela pessoa com raiva, eu em mim só quero o bem (ainda que naturalmente agressiva...), eu tento o bem. 

E acreditem, se "vier por bem, pode ficar".

Deixar cair as máscaras

11
Set19

A Jurubeba Cultural_ Brasil_.. Caíram as máscara

Na série "Thirtheen Reasons Why" ou "Por Treze Razões" há uma parte em que as personagens principais falam sobre máscaras (de carnaval), o diálogo é mais ou menos isto:

" Personagem 1 - Odeio máscaras. 

Personagem 2 - "Passas a vida a esconder-te das pessoas. E odeias máscaras! Ok...mas o que trazes vestido é uma máscara. Andamos sempre com máscaras, a tentar ser aquilo que trazemos vestido.

Personagem 1 - Se fosse verdade, eu já me tinha tornado num carapuço há muito tempo."

Devem-se estar a perguntar porque achei este diálogo interessante ou, pelo menos, suficientemente interessante para o transcrever para aqui.

Mas eu identifico-me com este diálogo. Não tanto agora, mas durante anos eu tentei ser quem não era. Usava máscaras e capas para que as pessoas não se apercebessem da minha dor, para que eu não me apercebesse da minha própria dor.

Por muito tempo pensava como seria ser outra pessoa. Como seria não seguir os pârametros da sociedade e seguir a vida exactamente como pretendemos. Só que a verdade é que eu durante anos fui uma pessoa que não era, ou talvez seja, simplesmente agora mostro a dor pelo que passei, os traumas que tenho, as mazelas que ficaram. E isso acaba por mudar a pessoa que eu sou hoje.

Penso que a mudança é para melhor, ainda que para alguns a minha "melhoria" possa ser prejudicial para eles, porque digo o que penso, faço mais o que me apetece, tento agradar menos aos outros, ao contrário do que fazia na tentativa de sentir que gostavam de mim. No fundo, olho mais para mim e para aquilo que me faz bem.

Mas não pensem que as máscaras caíram por completo, porque isso não aconteceu. Ainda as uso, serão sempre a minha protecção. A forma de me proteger do que me pode magoar, derrubar. As máscaras tornaram-se no meu escudo. 

Numa conversa com o meu anjo, fiz a descrição do que o meu nome poderia significar e perguntei-lhe se concordava e a resposta foi "não! mas acredito que para 99,9% das pessoas que te conheçam isso corresponda à verdade, só que eu conheço o teu lado sombrio." 

Ele (ainda) não sabe, mas aquilo mexeu comigo. Porque alguém, ainda que seja das pessoas mais importantes à face da terra, ainda que seja quem melhor me conhece/compreende, conhece-me sem máscaras. Sem barreiras, sem escudos, sem protecção. E isso ainda mexe comigo. 

Eu sei que foi com a ajuda do meu anjo que comecei a quebrar algumas barreiras, a deixar em casa algumas máscaras, a mostrar-me quem realmente sou. Só com o meu anjo é que sou realmente eu, com todos os meus medos, fragilidades e receios.

E não pensem que é fácil. Porque foi esse meu anjo que derrubou as barreiras, que me alertou que devia pedir ajuda, que bloquear não ia resolver nada. E ao fazer isto, abriu a caixa de pandora. E acreditem que, quando vos digo que mexeu comigo, é que, o meu lado sombrio, os meus pensamentos mais estranhos, os meus sentimentos mais negros, eram só meus. Agora são conhecidos. Porque ao meu anjo não consigo esconder nada, talvez até me conheça melhor que eu própria. 

E apesar de ter dito que mexeu comigo, não é mau. É bom. Finalmente tenho alguém na minha vida com quem posso ser eu própria, sem medos de que se vá embora. Aquele anjo conhece o pior e o melhor de mim e gosta dos dois. Quer o meu bem, sempre. Até podendo achar que o meu pior é mesmo pior que o meu melhor. Não sei, nunca lhe perguntei. Sei que está comigo nesta caminhada. E sei que estará a meu lado se ao longo desta caminhada eu quiser desistir, fugir ou voltar a usar constantemente as máscaras que já usei.

Outra questão é se quero voltar a usar essas máscaras. E para já (porque a vida muda) a resposta é não.

Sinto-me melhor agora, porque não tenho que pensar em como agir ou reagir, em ser politicamente correcta, em tentar ser perfeita para que as pessoas gostam de mim. Até porque isso não me levou a lado nenhum. E hoje sei disso.

Eu significo alguma coisa. Eu valho alguma coisa. E tudo o que passei, de menos bom na vida, apenas me dá força no dia-a-dia para querer ser melhor pessoa. E querer cuidar de quem gosto e que está comigo de corpo e alma. E isso é muito difícil. Mas estou aprender e a fazer esse caminho. Sem máscaras, a olhar para mim, a cuidar de mim, porque se eu estiver bem, os outros que se relacionam comigo e que querem fazer parte da minha vida ter-me-ão a 100% para sorrir, rir ou chorar, quando necessário. 

A vida é isto mesmo. E eu quero aprender a viver a vida como ela deve ser vivida, sendo eu mesma.

E como dizia um texto que me leram há uns tempos: "Você encontrou uma abertura para a câmara do seu interior. Agora você pode irradiar esta glória e aquecer o mundo inteiro. (...) A coisa mais preciosa que você tem é o seu ser interior - exactamente como ele é. (...)".

As marcas que nos ficam

08
Set19

Hoje no facebook vi um post de uma página "Visão Clara" que tinha a seguinte imagem:

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E identifiquei-me com o que a imagem trazia, com a sua descrição.

Não com a primeira frase, porque como já vos disse o agressor da minha casa, o meu pai, nunca me bateu. Nunca foi violento fisicamente para mim.

Agora com a segunda frase...é exactamente aquilo que sinto. Que hoje sei que sinto. Eu realmente nunca fui violentada, fisicamente, mas fui psicologicamente, pois assistia a todas as discussões. Inicialmente, para com a minha Mãe e, uns anos mais tarde, para com o meu irmão. 

Eu assistia completamente desprotegida.

Recentemente, pela terapia que fiz, vi-me em criança a assistir às discussões dos meus pais. Assustada. 

Depois das discussões vinham os choros, as dormidas no sofá, o silêncio.

Não me perguntem como ficava depois disto, não me lembro.

Lembro-me de a minha Mãe ter por hábito sair da nossa casa para uma outra casa que nós tínhamos mais longe da cidade. Hoje acho que ela fazia isso para que a discussão ficasse por ali. Naquela altura eu sentia-me abandonada.

O que acontecia depois? Ao primeiro pensamento podiam achar que a minha Mãe saía, o meu pai se acalmava e uns tempos depois a minha Mãe regressava e estava tudo mais calmo.

Só que não! A minha Mãe saía, o meu pai pegava em mim e no meu irmão e ia atrás dela, para a outra casa.

Eu e o meu irmão íamos atrelados. Não tínhamos outra opção, éramos apenas crianças, sem poder de decisão. 

Chegados à outra casa a discussão continuava. E eu lá continuava a assistir. Até que um dos dois parasse. Se cansasse. Desistisse.

Não sei quanto tempo duravam as discussões. Hoje, à distância, parece que duravam uma eternidade. Os gritos, os insultos, os choros tudo isso está bem presente. Foram anos daquilo. E isso não passa, não se esquece. É impossível de esquecer.

A estes episódios (da minha outra vida) acrescento que, com uns 6/7 anos,  quando comecei a ter consciência do que se passava, ao começar a discussão ia a correr procurar as chaves de casa ou do carro. 

Achava eu, na minha inocência de criança, que estava a fazer o bem. Ou, sem saber, se calhar estava apenas a ser egoísta. Ao esconder a chave a minha Mãe não se ia embora e o meu pai não pegava em mim, não me tirava da minha casa, das minhas coisas para outra casa que, ainda que conhecida, não era o meu porto de abrigo.

Não sei. Não sei que sentimento naquela altura me levava a querer esconder as chaves. Mas que interessa isso agora?

Mesmo que fosse uma atitude egoísta, não teria eu esse direito? Pelo menos, pensava em mim. Eu pensava em mim. Já os meus pais...

Mas não pensem que as discussões ou os "desaparecimentos" repentinos da minha Mãe se ficavam pelas proximidades da casa onde víviamos. 

Não!

A minha Mãe chegou a pegar no carro e ir parar ao Algarve. Numa delas, já eu era maiorzinha, lembro-me que a minha Mãe se esqueceu do telemóvel. Não fazia ideia onde estava a minha Mãe.

Isto depois de uma brutal discussão com o meu Pai. Naquele dia, um sábado (nunca mais me esquecerei!), passou-me tudo pela cabeça. Tudo. O desespero total.

O meu Pai decidiu agir com naturalidade. Tanto eu como o meu irmão praticávamos desporto e tínhamos jogos nesse dia, então o meu Pai levou-nos para o pavilhão, achando que íriamos ter capacidade de jogar. Como se nada se tivesse passado.

Desespero total! A minha Mãe estava não sei onde. Nem sequer sabia se estava viva. E o meu Pai achou que era perfeitamente normal nós irmos jogar. Ignorando qualquer sentimento que tivéssemos naquele momento.

As horas passaram. Parecia uma eternidade. E finalmente o telemóvel tocou. Número desconhecido. Medo. O desconhecido é uma coisa terrível. A ansiedade. Quando oiço a voz da minha Mãe do outro lado da linha foi uma descarga de adrenalina. Estava bem, estava viva. Apenas decidiu fugir por uns dias.

Pedi-lhe que voltasse. Era dela que eu precisava, não do meu pai. E aí sim, era um pedido egoísta. Voltar levaria a minha Mãe de novo para o centro das discussões. Não tinha mais nenhum sítio para onde ir. Tinha que voltar para casa. E ainda assim pedi-lhe que voltasse. Eu precisava de saber que ela estava bem.

Eu que sempre pedi para que se divorciasse, estava a pedir à minha Mãe para voltar para casa. Mas a minha Mãe não voltou. Não naquela noite. E durante aquela noite tive que fingir que estava tudo bem. Que não sentia medo, receio, desespero.

E o pior é que quando a minha Mãe não estava e, principalmente depois de uma discussão, o meu pai agia como sendo o pai perfeito. Aquele pai que todos queremos ter, mas que ele nunca foi.

No fundo, ao meu pai só lhe interessava ganhar a discussão. A minha mãe apenas queria sobreviver. 

Pelo caminho, os filhos viviam perdidos num mundo que não escolheram.

E ao crescer, os filhos tornaram-se adultos e com eles trouxeram dentro de si as marcas da violência. 

E, no meu caso, durante anos não sentia nada.

Estar no meio de uma multidão assustava-me. Falar do que sentia era impossível. Aceitei o inaceitável de família e amigos porque tinha medo de demonstrar quem era e de fazer valer a minha opinião. 

Desvalorizei-me. Achava que merecia o que passava e que, até há bem pouco tempo, passei. 

Hoje sei que não mereço. Mereço muito mais. Ainda que não me valorize como gostaria, sei que tenho valor. Sei que quem tenho comigo está porque quer estar, porque gosta de quem sou, porque gosta de mim. E isso, faz-me a cada dia querer ser melhor. Melhor pessoa, melhor ser humano. 

Estou aprender. Como diz a música: "estou aprender a ser feliz" (https://youtu.be/a_dsM3x5_vo)

 

 

 

A criança (interior)

04
Set19

                                                       IMG_3923.JPG

"É urgente que o adulto sofrido dê colo à criança que foi. É urgente que se celebre essa reconciliação. É urgente segurar-lhe a mão e dizer-lhe: - Encontrei-te. Agora ficas aqui comigo. Tomarei conta de ti. Não importa de onde vens. Agora sabes a quem pertences"  

Inspirado na obra de Saint - Exupéry .O Principezinho  (retirado da página de facebook "Mala d'estórias")

 

Neste meu processo evolutivo passei (e continuo a passar) por várias etapas. Etapas em que percebi o caminho que estava a seguir, outras em que senti que não me estavam ajudar em nada, outras que hoje percebo o que passei. 

Todas elas tiveram e têm algum significado para mim e mudaram a pessoa que eu hoje sou.

Este processo nem sempre existiu, aliás, como já referi durante muitos anos entendi que falar sobre o que se passava quando era criança ou já em adulta falar sobre o que tinha passado e ainda passava, não ia resolver nada.

Por outro lado, sempre achei que nada daquilo tinha mexido comigo ao ponto de bloquear pontos essenciais da minha vida ou de me causar traumas e receios. Achava que quando falava sobre o assunto o fazia naturalmente, sem demonstrar qualquer tipo de raiva ou agressividade.

Só que estava bem enganada.

Mas na altura não tinha ninguém que me alertasse para o que estava acontecer.

Eu própria, sem saber, estava a auto-destruir-me. Confiava que sabia o que estava a fazer, que a forma como eu reagia e as decisões que tomava eram as mais certas, que o meu passado em nada me influenciva. Não era verdade.

O meu passado estava apenas trancado a sete chaves num sítio bem recôndido, ou não. Secalhar esteve sempre bem presente ao meu lado e eu é que o ignorava.

Depois um dia apareceu alguém na minha vida, com quem me senti à vontade para partilhar o meu passado, que me alertou. Disse-me que eu não podia ignorar mais que precisava de ajuda e que sozinha nunca ia lá (onde que quer que seja que esse "lá" seja).

Naquela altura aquela conversa caiu como uma bomba: mas quem era aquela pessoa que mal me conhecia para dizer que eu precisava de ajuda? 

Mal eu sabia que aquela pessoa se ia transformar num anjo na minha vida. Que me iria fazer ver as coisas exactamente como elas realmente são, por mais duras que sejam. Que sempre me disse que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que procurar quem me ajudasse. E tinha razão. 

Há um ano e pouco, por uma situação profissional vi-me num conflito interior, de dúvidas, de não saber se estava a seguir o caminho certo. 

O meu anjo, ainda que muito presente, não me podia ajudar. Não sobre este aspecto, não sobre as minhas dúvidas existenciais.

E então, aquilo que há uns anos atrás o meu anjo me tinha dito concretizou-se. E procurei ajuda.

Eu não sabia que tipo de ajuda precisava, sabia apenas o que sentia e o conflito interior que existia dentro de mim.

Procurei um psicólogo e lembro-me de chegar lá, sentar-me no cadeirão e dizer: "entrei num desafio, estou prestes a conseguir alcançá-lo, mas não sei se o quero, nem sei porque é que realmente entrei nele"

E foi nesse sentido que por uns meses fomos falando daquele desafio e das minhas dúvidas perante aquele desafio. O que é que eu fiz? Ignorei, outra vez, realmente os verdadeiros motivos porque tinha ido lá parar: o meu passado.

Quando o meu psicólogo consegue abrir o tal cadeado fechado a sete chaves ou, pelo menos, consegue dar a primeira volta às chaves, eu senti que o meu mundo se desmoronava. E, não por falha dele, mas minha. Já não me era suficiente, eu precisava demais. Mas o quê?

E aí aparece outro tipo de terapia. E nessa terapia começo a lidar com o meu passado sem receio, porque eu, um ano após procurar ajuda, já sabia que era o que tinha a tratar. O meu passado era (e é) uma rocha na minha vida. Que me impede(ia) de avançar para o caminho que eu mereço. 

Nesta terapia comecei a redescobrir-me. Tratar os meus receios, os meus bloqueios e encarar o passado de frente. E para poder encarar esse passado de frente, precisava de reencontrar-me, de saber quem fui naquela família, como cresci, o que senti quando cresci. Para isso, foi fundamental um trabalho de encontrar a minha criança. A minha criança interior. A criança que eu fui.

E neste duro processo eu encontrei--me com ela. E encontro-me com toda a minha dor. Com tudo aquilo porque passei e que fui ignorando. E percebi que ignorar o que sentia, era ignorar também a minha criança, aquela criança que eu fui e que ainda sou. Aquela criança que apenas precisa de colo. E quando eu estiver disposta a dá-lo, entregar-me a 100% em cuidar dela, em dar-lhe o tal colo, sei que atingi o caminho certo.  

Admito que ainda não estou disposta a dar esse colo que ela precisa. Eu e a minha criança precisamos de tempo, tempo para entender, tempo para perdoar, tempo para aceitar o que a vida me reservou. 

O meu passado já não está fechado a sete chaves. Eu já aceito que ele existe. Ainda não aceito o que aconteceu, ou não compreendo algumas coisas porque passei, talvez nunca o venha a compreender.

Apenas quero aprender a viver com ele, sentir que não sou prisioneira do meu passado e que não vivo amarrada a ele. Pois, é possível viver para além dele!

Sentir...sozinha

02
Set19

A Luísa Castelo Branco (pessoa pela qual assumo não ter grande simpatia) disse numa entrevista aquilo que podia muito bem ter sido eu a dizer: "Sempre me senti sozinha. Sou uma carta fora do baralho. Gostava de ser normal, mas não sou. Dentro de mim, eu sinto-me sozinha. (...) Sou uma pessoa complexa.(...)"

Há uns tempos escrevia-vos que sempre me senti sozinha. Sozinha nos pensamentos, no sentir, no viver. 

Não me perguntem porquê, mas desde cedo percebi que estava sozinha, os meus pais viviam focados no trabalho para esquecerem os problemas que havia em casa, o meu irmão desde cedo enterrou a cabeça na areia (com motivos para isso) e não soube ser o "irmão mais velho" que eu precisava e eu vi-me sozinha numa casa (e talvez numa família) com a qual não me identificava.

Seria injusto se não dissesse que a minha Mãe sempre esteve lá para mim,  como ainda hoje está, só que há uma diferença entre o estar lá para mim e o saber de mim. 

Há uma diferença entre ouvir-me e aconselhar-me, saber o que se passava na minha vida, ou o achar que aquilo que eu transparecia era a verdade. A minha Mãe nunca soube interpretar as minhas máscaras. 

Hoje sei que estava demasiado preocupada em sobreviver. A minha Mãe tentava sobreviver. Em vez de pedir o divórcio e sair com os filhos para um ambiente saudável, a minha Mãe tentava sobreviver. Os filhos são a vida da minha Mãe, não duvido. Só que na sobrevivência, muitas vezes, esquecemos do mais importante. E, neste caso, a minha Mãe (os meus pais) esqueceu-se do mais importante: do bem estar dos filhos.

E, por isso, sempre me senti sozinha. Em casa era a única que fazia frente a um agressor. Era aquela menina que não dando preocupações, não precisavam de perguntar se estava tudo bem, porque, no entender deles, tinha que estar.

Era a criança que se dedicava aos estudos, ao teatro, ao desporto, a tudo o que levasse a passar o menos tempo possível em casa, num ambiente que não identificava como meu.

É díficil vivermos rodeados de pessoas e, ainda que no meio da multidão, nos sentirmos sozinhos. 

Eu, bem ou mal, sempre procurei nos meus amigos a família que não tinha em casa. Encontrei os amigos que ficaram para a vida, os que vieram, mas partiram, os que percebi que não valia a pena ficar, mas encontrei, acima de tudo, os que valem a pena, os amigos que são família, a minha família. 

Só que nem por isso me deixo de sentir sozinha. Como posso não sentir algo que durante anos eu senti? É como se fizesse parte de mim, da minha essência. Aprender a viver a vida ainda que acompanhada, sozinha. 

Parece estranho, não é? Mas acreditem que é possível.

O Amor, ou melhor, a base do Amor tem de vir de casa. Da nossa família. E esse Amor eu não sentia. Hoje sinto, felizmente aos 30 anos, posso dizer que hoje sinto. Temos formas diferentes de o demonstrar, mas sei que nos amamos à nossa maneira.

Mas a base não existe. Isso falha. É como tentar construir uma casa sem primeiro fazermos a estrutura, sem os pilares mestres, dificilmente se segurará em pé. 

Com a mais pequena rajada será derrubada. E precisamos de mais tijolos e cimentos para voltar a pôr a casa de pé. E aí ou temos novamente cuidado ao reerguer a casa ou poderá voltar a cair. 

E no meu caso, a base não existe. A base de uma família unida e que se ama não existe. Ou talvez não tenha existido quando devia. E quando se tentou reconstruir a família, houve rachas que o cimento já não tapou e elas notam-se. Vão-se notar sempre. No entanto, cabe-nos a nós, a essa família, lutar para que essas rachas não se abram ainda mais e outras não surjam. E se conseguirmos isso, saberemos que conseguimos juntos reerguer o que parecia impossível de reerguer.

Certo é que se a casa-base, se o porto de abrigo não nos dá o que precisamos, como podemos confiar que quem não faz parte da casa-base nos dará?

Como confiar que quem é de fora gosta de nós como se de família fôssemos? 

Não é fácil. E todos os dias é uma luta interna para confiar. Para acreditar que, ainda que me sinta sozinha, não estou efectivamente sozinha. E nessa altura sorrir, porque conquistámos o mais difícil: o mundo cá fora. 

#Basta

01
Set19

Recebi um e-mail hoje cujo assunto era "sobre tomar decisões perfeitas" e não falando apenas de decisões perfeitas, hoje sei que durante anos (a vida inteira) tentei tomar as decisões perfeitas, as que achava mais certas, o que devia fazer para que nada se virasse contra mim, ou melhor, para que o que se passava dentro de casa não se virasse contra mim.

Mas só cheguei a esta conclusão quando decidi olhar para mim. Quando percebi que a minha vida inteira tive medo de viver, de desfrutar da vida, de pisar a linha como é normal na adolescência, porque tinha medo do que me podia acontecer. 

Se era a menina perfeita? Não, isso nunca fui, nem nunca serei. Não fui rebelde, nem de cometer grandes loucuras, pois sabia que poderia vir a ser agredida fisicamente. 

Via o que a minha mãe e o meu irmão passavam.

Assistia todas as noites ou noite sim, noite não às discussões que havia entre o meu pai e a minha mãe ou entre o meu pai e o meu irmão. 

Eu via e nada podia fazer. Por isso, desde cedo percebi que se fosse a menina que estudasse, se comportasse, que não desse problemas, as discussões violentas não se virariam para mim.

Mas corri riscos também. Um agressor é, na maioria das vezes, um cobarde. Não gosta de ser confrontado. E eu confrontava. 

Ao invés da minha mãe e do meu irmão que há mínima ordem, cumpriam. Eu não. Dizia que não era criada dele, que a minha parte estava feita, que cada um podia ajudar. E não seguia imperativamente as ordens dele. E isso irritava-o, mas também o acorbadava. Alguém (uma criança) fazia-lhe frente. E ele não sabia reagir a isso.

Se nunca me fez mal, fisicamente falando, foi por pura sorte. Psicologicamente deixou-me traumas e sentimentos bloqueados que ficarão para o resto da vida, mais presentes ou menos presentes, mas estarão sempre. A marca física dói, mas passa. Sabemos que nos bateram, só que desaparecendo, seguimos em frente com menos dificuldade. A psicológica fica. Mói, não mata, mas mói. E fica para sempre.

Em relação à agressão física (ou há possibilidade disso vir a acontecer) perante a minha pessoa, lembro-me de uma muito específica, a primeira.

Tinha 17 anos (a um mês dos 18...) e os meus pais tinham-se divorciado há uns meses, talvez 3. Só que, apesar de divorciados, decidiram continuar juntos e a fingir que éramos a "família perfeita". 

Era junho e eu chegava a casa e a minha mãe disse-me para me despachar que íamos jantar fora. E eu já farta daquela fantochada e porque, muito provavelmente, estava em dia não, decidi que não ia compactuar mais com aquilo e disse-o à minha mãe. Nesse exacto momento o meu pai entrou em casa (na casa que já não era dele!) e ouviu aquilo que eu dizia. E eu vi aquele olhar de raiva que tantas vezes tinha visto em relação à minha mãe e ao meu irmão. E tremi. E temi por mim. Pela primeira vez aquela raiva tinha-se virado para mim.

E corri para o quarto, para o meu espaço. Tranquei a porta e esperei que ele se acalmasse. Só que teve o efeito contrário e aquilo enfureceu-o ainda mais. Batia na porta insistentemente e só dizia que para meu bem era melhor que eu a abrisse. Senti-me tão pequenina. Tão perdida. O que faria eu se lhe abrisse a porta? Para onde podia fugir? Para lado nenhum. Estava encurralada.

A minha mãe do outro lado da porta pedia que eu a abrisse, dizia que era o melhor para todos e eu abri-a. E corri para a cama e deitei-me com os joelhos a proteger o corpo, preparada para o pior. Acreditem. Foram fracções de segundos, hoje sei disso. Na altura pareceu uma eternidade.

E quando sinto a mão levantada para me bater, aquele olhar vidrado de raiva, disse-lhe: "bate-me, eu saio daqui para a polícia. Tu sais daqui com a polícia." E ele afastou-se. 

Tinha, sem saber bem como, dito as palavras certas. No momento certo.

Afastou-se e só me disse "é melhor vestires-te e ires jantar. Até fazeres 18 anos terás que fazer o que eu mandar". E assim foi. 

Hoje não sei como fui capaz. Nem sei sequer como não levei a tareia que aqueles olhos me indicavam que ia levar. Não sei. 

No entanto, podia-vos dizer que tinha sido a primeira vez que senti que o meu mundo ia acabar. Mas não. Sempre que via agressões (físicas) entre o meu pai e o meu irmão ou discussões violentas entre os meus pais, o meu mundo acabava um pouco. 

Imaginem uma folha em branco que vão amarrotando até não ser possível amarrotar mais. A minha vida foi assim. Durante anos a minha vida foi sendo amarrotada, mal tratada, esburacada, amachucada.

E agora estou aos poucos a tentar esticar essa folha amarrotada. Já a passei a ferro, mas não melhora. Por isso, decidi que precisava de minimizar os efeitos dessa folha amarrotada na minha vida. 

E o primeiro passo está dado. O segundo também. A cada dia se dá mais um passo para minimizar efeitos. 

As memórias ficam. Os bloqueios também. Melhoram. Tornam-se menos presentes. Mas estão lá. Fazem parte de mim. Sou eu.

Agora acreditem. Achei que durante anos tomei as decisões certas, só que andei enganada este tempo todo. 

As decisões que achei que me levavam pelo caminho da paz podiam ter sido aquelas que podiam ter feito com que as agressões e as discussões fossem directamente comigo. 

Se tive sorte? Não. Tive a coragem de lutar um bocadinho todos os dias por mim e por quem amava, preferindo correr riscos, do que ser mais uma vítima (directa) nas mãos de um agressor.

É cobarde. E hoje sei que se virava apenas para quem se sentia inferior perante ele. Hoje sei também que me sinto superior perante ele. Que sou melhor que ele. Que valho mais que ele.

E isso basta-me para dizer #basta!

Ser prisioneiro...

29
Ago19

Há uns dias estava à espera que me atendessem num sítio qualquer e peguei numa revista para passar o tempo e sem esperar ao ler uma entrevista deparei-me com a seguinte frase:

"(...) o meu pai e a minha mãe abriram guerra entre eles e só fizeram três prisioneiros - os filhos." (autor desconhecido)

Esta frase define bem a minha vida. Durante o tempo em que os meus pais viveram juntos ou depois quando se separaram. E isso é fácil explicar, não sei se fácil de imaginar.

Os meus pais são duas pessoas bem-sucedidas profissionalmente. Começaram do zero. Sem ajuda de ninguém e cada um construiu a sua própria empresa. Ambos tinham cerca de 20 anos quando se tornaram "patrões deles próprios". 

Isto demonstra a forte personalidade dos meus pais. Mas também revela que desde os 20 anos os meus pais viveram para o trabalho. Era isso que lhes dava adrenalina. E queriam mais e mais.

Só que esqueciam-se que o querer mais e mais no trabalho, levava a que alguma coisa ficasse para trás. E neste caso, era a família que ficava esquecida. 

O trabalho era presença constante à mesa, os telemóveis nunca eram desligados nas férias e as chamadas não paravam, os fins-de-semana de trabalho eram regulares, logo o convívio familiar era qualquer coisa de muito escasso.

Os meus pais viviam para o trabalho. E, apesar de terem profissões diferentes, ainda que nunca o tivessem admitido em voz alta, era notório que havia competição entre eles. Quem conseguia chegar mais longe, quem tinha mais sucesso, quem ganhava mais.

E essa competição prejudicava a vida familiar, porque era como se houvesse um elefante em casa, que todos viam, mas ninguém falava. E ninguém queria assumir que havia problemas que tinham de ser resolvidos. E afogavam-se no trabalho. Viviam para o trabalho, esquecendo-se muitas vezes que havia duas crianças em casa à espera.

E essas duas crianças viviam ansiosas por momentos de diversão, de passeios, de atenção, de brincadeiras, no fundo, de terem os pais focados nelas. 

Mas isso raramente acontecia.

Por exemplo, uma das coisas que acontecia muito era ao domingo prepararmo-nos para irmos dar um passeio, entrarmos no carro, começarmos a viagem e alguns minutos depois os meus pais começavam a discutir e não havia passeio para ninguém. Voltávamos para casa, a discussão lá continuava e os filhos assistiam e pronto, cada um para seu lado e domingo em família estragado.

E quem é que saía prejudicado? Os filhos. Sempre. 

Em quem é que pensavam os pais? Neles próprios. Não nos filhos.

Os filhos não eram protegidos naqueles confrontos. Assistiam desprotegidos a insultos, gritos, murros (na mesa, ou na parede, ou onde quer que fosse). Ficavam com as expectativas de um domingo "bem passado" frustradas, porque o foco não era o bem-estar deles. 

E este exemplo de domingo equivale para as férias, para os dias de semana, para...tudo. As discussões eram uma constante. Estar em casa era um terror. 

Ora, os meus pais refugiavam-se no trabalho para esquecer ou ignorar os problemas da sua vida pessoal. 

E as crianças? Como lidam com isso? 

Na verdade, nós quando nascemos não vimos preparados para encontrar um ambiente agressivo e opressivo. E também não temos trabalho para nos refugiarmos. Até irmos para a escola só conhecemos um ambiente: o de casa. 

Enquanto crianças nada podemos fazer. 

Depois com o tempo, podemo-nos focar no estudo, em actividades extra-curriculares, em procurar fora de casa um ambiente mais saudável. E passar o menos tempo possível em casa.

Isto tornou-se a minha solução. Sair de casa cedo e chegar tarde. Questionar como estava o humor de quem provocava as discussões antes de entrar em casa. Querer estar sempre ocupada para também eu não ter que lidar com o elefante que vivia lá em casa.

Mas isto não é vida. A escolha de um casamento entre duas pessoas que não se davam bem não é dos filhos. Não foi minha. 

A escolha de manter um casamento infeliz não é dos filhos. É de dois adultos que foram egoístas e esqueceram-se que trouxeram ao mundo dois seres humanos que mereciam mais. Muito mais. 

E por isso, sim. A guerra era dos meus pais, a prisioneira era eu. E talvez ainda seja. E talvez vá ser sempre.

O passado persegue-nos, pode aprender-se a viver com ele, a saber lidar com ele. Só que ele está enraizado em nós. É parte de nós. É quem nós somos.

Logo, não seremos prisioneiros para sempre de uma guerra que não é, nem nunca foi, nossa?

 

Perdoar a vida...será possível?

28
Ago19

Retomo hoje um bocadinho mais sobre a minha história de vida, ou melhor, sobre o porquê de vos ter dito que o problema não é ser filha de pais divorciados, é tudo o que aconteceu na minha vida após o casamento.

Bom, o casamento dos meus pais não me trouxe felicidade, pelo contrário, preciso de parar e concentrar-me muito para conseguir dizer-vos um momento em que fomos efectivamente todos felizes. Ou nem assim. Acho mesmo que nunca fomos verdadeiramente felizes juntos. 

Momentos de felicidade houve claro. Momentos de diversão também, só que até um momento de diversão era possível ser transformado num momento de ataques verbais, de discussões, de lágrimas. E é exactamente isso que fica quando olhamos para o nosso passado: os momentos maus.

Se houve momentos de felicidade e diversão, ainda que escassos, penso que nunca terá havido momentos de amor incondicional entre a família (durante o casamento). Não podíamos dizer o quanto gostávamos uns dos outros, não nos podíamos abraçar, pedir colo, ou o que quer que seja "normal" numa família. 

Por isso, o divórcio no meu entender seria sempre a melhor opção. O problema é que na altura pouco ou nada sabia da vida ou do amor (ou deverei dizer do ódio?) e nunca pensei que após o fim do casamento as coisas se tornassem ainda piores. 

Acredito que seja difícil perceber isto, até porque só ao fim de muitos anos eu própria o percebi, os meus pais não se separaram por não gostarem um do outro, por traições, etc., os meus pais divorciaram-se por muitos outros motivos, principalmente, por agressões físicas na família. E este é o problema. O maior deles todos.

O gostar deles (ou de um deles) tornou-se numa obsessão. Num sentimento de posse. E de um jogo de poder (ou braço de ferro) que envolveu dinheiro, filhos e tudo o que estivesse no caminho para atingir o fim.

Eu fui um meio para atingir um fim. Hoje sei disso. Mas hoje também sei que, por falta de maturidade, de quem me alertasse, deixei-me ser esse meio.

E prejudiquei-me. Magoei-me. Criei em mim danos que não sei se algum dia serão reparáveis. 

Fui usada. Ao quererem tanto atingir-se um ao outro esqueceram-se que eu era filha. A filha deles. E usaram-me no jogo deles. Não me protegeram. E eu não pedi protecção.

Pelo contrário, achei que era eu que tinha que proteger. Que era eu a salvadora ou a justiceira. E acabei por ser eu a ferida nestes ataques todos. 

Acabei por ser eu a levar o "game over". A tacada final. E caí. 

Só que não sabia o quão fundo tinha ido. Desconhecia de todo o buraco que tinha estado a escavar dentro de mim para me esconder. Desconhecia (e talvez ainda desconheça) os danos que a vida que os meus pais decidiram ter durante e após o casamento tiveram em mim. 

E quando penso nisso, pergunto-me se serei capaz de perdoar. De os perdoar. De me perdoar. 

Pergunto-me se serei capaz de olhar para eles e perceber o porquê de tudo isto.

Pergunto-me se realmente conseguirei algum dia destruir as barreiras que fui construindo dentro de mim. Guardar as máscaras que fui criando para me proteger. 

Pergunto-me se algum dia conseguirei olhar para o futuro sem colocar os medos ou os "se's" do passado. 

Acima de tudo, se conseguirei perdoar a vida. 

Mas sei que, mesmo que o perdão não chegue, eu consigo viver para além disto. Basta querer. Basta lutar por isso. E nunca tive medo de ir à luta. Por isso vou, porque quero viver para além disto.