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É possível viver para além disto!

É possível viver para além disto!

A criança (interior)

04
Set19

                                                       IMG_3923.JPG

"É urgente que o adulto sofrido dê colo à criança que foi. É urgente que se celebre essa reconciliação. É urgente segurar-lhe a mão e dizer-lhe: - Encontrei-te. Agora ficas aqui comigo. Tomarei conta de ti. Não importa de onde vens. Agora sabes a quem pertences"  

Inspirado na obra de Saint - Exupéry .O Principezinho  (retirado da página de facebook "Mala d'estórias")

 

Neste meu processo evolutivo passei (e continuo a passar) por várias etapas. Etapas em que percebi o caminho que estava a seguir, outras em que senti que não me estavam ajudar em nada, outras que hoje percebo o que passei. 

Todas elas tiveram e têm algum significado para mim e mudaram a pessoa que eu hoje sou.

Este processo nem sempre existiu, aliás, como já referi durante muitos anos entendi que falar sobre o que se passava quando era criança ou já em adulta falar sobre o que tinha passado e ainda passava, não ia resolver nada.

Por outro lado, sempre achei que nada daquilo tinha mexido comigo ao ponto de bloquear pontos essenciais da minha vida ou de me causar traumas e receios. Achava que quando falava sobre o assunto o fazia naturalmente, sem demonstrar qualquer tipo de raiva ou agressividade.

Só que estava bem enganada.

Mas na altura não tinha ninguém que me alertasse para o que estava acontecer.

Eu própria, sem saber, estava a auto-destruir-me. Confiava que sabia o que estava a fazer, que a forma como eu reagia e as decisões que tomava eram as mais certas, que o meu passado em nada me influenciva. Não era verdade.

O meu passado estava apenas trancado a sete chaves num sítio bem recôndido, ou não. Secalhar esteve sempre bem presente ao meu lado e eu é que o ignorava.

Depois um dia apareceu alguém na minha vida, com quem me senti à vontade para partilhar o meu passado, que me alertou. Disse-me que eu não podia ignorar mais que precisava de ajuda e que sozinha nunca ia lá (onde que quer que seja que esse "lá" seja).

Naquela altura aquela conversa caiu como uma bomba: mas quem era aquela pessoa que mal me conhecia para dizer que eu precisava de ajuda? 

Mal eu sabia que aquela pessoa se ia transformar num anjo na minha vida. Que me iria fazer ver as coisas exactamente como elas realmente são, por mais duras que sejam. Que sempre me disse que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que procurar quem me ajudasse. E tinha razão. 

Há um ano e pouco, por uma situação profissional vi-me num conflito interior, de dúvidas, de não saber se estava a seguir o caminho certo. 

O meu anjo, ainda que muito presente, não me podia ajudar. Não sobre este aspecto, não sobre as minhas dúvidas existenciais.

E então, aquilo que há uns anos atrás o meu anjo me tinha dito concretizou-se. E procurei ajuda.

Eu não sabia que tipo de ajuda precisava, sabia apenas o que sentia e o conflito interior que existia dentro de mim.

Procurei um psicólogo e lembro-me de chegar lá, sentar-me no cadeirão e dizer: "entrei num desafio, estou prestes a conseguir alcançá-lo, mas não sei se o quero, nem sei porque é que realmente entrei nele"

E foi nesse sentido que por uns meses fomos falando daquele desafio e das minhas dúvidas perante aquele desafio. O que é que eu fiz? Ignorei, outra vez, realmente os verdadeiros motivos porque tinha ido lá parar: o meu passado.

Quando o meu psicólogo consegue abrir o tal cadeado fechado a sete chaves ou, pelo menos, consegue dar a primeira volta às chaves, eu senti que o meu mundo se desmoronava. E, não por falha dele, mas minha. Já não me era suficiente, eu precisava demais. Mas o quê?

E aí aparece outro tipo de terapia. E nessa terapia começo a lidar com o meu passado sem receio, porque eu, um ano após procurar ajuda, já sabia que era o que tinha a tratar. O meu passado era (e é) uma rocha na minha vida. Que me impede(ia) de avançar para o caminho que eu mereço. 

Nesta terapia comecei a redescobrir-me. Tratar os meus receios, os meus bloqueios e encarar o passado de frente. E para poder encarar esse passado de frente, precisava de reencontrar-me, de saber quem fui naquela família, como cresci, o que senti quando cresci. Para isso, foi fundamental um trabalho de encontrar a minha criança. A minha criança interior. A criança que eu fui.

E neste duro processo eu encontrei--me com ela. E encontro-me com toda a minha dor. Com tudo aquilo porque passei e que fui ignorando. E percebi que ignorar o que sentia, era ignorar também a minha criança, aquela criança que eu fui e que ainda sou. Aquela criança que apenas precisa de colo. E quando eu estiver disposta a dá-lo, entregar-me a 100% em cuidar dela, em dar-lhe o tal colo, sei que atingi o caminho certo.  

Admito que ainda não estou disposta a dar esse colo que ela precisa. Eu e a minha criança precisamos de tempo, tempo para entender, tempo para perdoar, tempo para aceitar o que a vida me reservou. 

O meu passado já não está fechado a sete chaves. Eu já aceito que ele existe. Ainda não aceito o que aconteceu, ou não compreendo algumas coisas porque passei, talvez nunca o venha a compreender.

Apenas quero aprender a viver com ele, sentir que não sou prisioneira do meu passado e que não vivo amarrada a ele. Pois, é possível viver para além dele!

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