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É possível viver para além disto!

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Abraçar o mundo

16
Abr20

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(imagem pinterest)

 

 

Havia uma menina que sempre teve muitos sonhos. 

Diziam-lhe muitas vezes que parecia que sonhava acordada e a menina ria-se. Não parecia, sonhava mesmo.

Um dos sonhos que não lhe saía da cabeça era o de chegar à lua e poder ver o mundo de cima e de o poder abraçar.

Vivia com a sua avó e um dia quando chegou a hora de dormir a menina perguntou à avó se naquela noite podia ser ela a contar a história. A avó disse imediatamente que sim, adorava ouvir as histórias da neta, que sabia mais não serem do que os sonhos dela.

Mas antes de começar, a menina fez a avó prometer que não se ia esquecer daquela história. E quando a avó ouviu aquelas palavras, perguntou espantada: - porque me pedes isso?

A menina ficou com receio de que a sua resposta pudesse magoar a avó, mas disse: - Avó, sinto que nos últimos tempos andaste mais esquecida. Não sabes se puseste sal na sopa, onde deixaste a chave de casa ou se já tomaste os comprimidos. E eu não queria mesmo que te esquecesses desta história. 

A avó sentiu um aperto no peito, sabia que o que a neta dizia era verdade, mas não queria admitir que se esquecia mais das coisas que a própria neta achava. E com um sorriso nos lábis tentou descansar a neta: - Não sejas tonta, achas que eu era capaz de me esquecer de alguma coisa vinda de ti? Agora conta lá a história que tens que ir dormir.

E a menina começou.

"Era uma vez uns meninos que queriam muito abraçar o mundo. Quando contaram aos seus pais a ideia, os pais acharam aquilo muito disparatado. Diziam-lhes que deviam pensar em coisas mais reais e que, em vez de andarem sempre a sonhar, deviam era andar com os pés na terra. Deviam estudar e ser os melhores alunos, serem educados, responsáveis, porque a vida não era fácil e não dava para esses sonhos ridículos.

Sempre que ouviam os pais dizer isso, os meninos sentiam uma vontade imensa de chorar e de dizer aos pais que um dia lhes iam provar que iam conseguir abraçar o mundo. 

Sentiam-se incompreendidos em casa. Os pais andavam sempre ocupados com o trabalho e no final do dia não tinham paciência para eles. As discussões eram tantas que só a sonhar é que aqueles meninos eram felizes.

Então um dia os meninos decidiram que só podiam abraçar o mundo se soubessem como era o mundo lá fora.

Por isso, decidiram ir perguntar a quem conheciam, como poderiam eles abraçar o mundo.

Foram ao Sr. Zé do café da esquina e perguntaram-lhe: - Sr. Zé, como podemos abraçar o mundo?

O Sr. Zé olhou-os curioso. Aqueles meninos tinham uma imaginação muito fértil e respondeu-lhes: - Meus meninos, só vos posso responder falando por mim. Eu abraço o mundo todos os dias quando sei que os meus clientes saem felizes daqui. Aí sei que consegui abraçar o mundo.

Os meninos não perceberam muito bem, mas agradeceram. E foram à D. Maria da mercearia.

Lá chegados fizeram a mesma pergunta. A D. Maria respondeu-lhes que abraçar o mundo para ela acontecia sempre que colhia o que tinha plantado e podia vender essas coisas boas aos seus fregueses e que isso ia estar na mesa das pessoas à refeição. 

Mais uma resposta que não percebiam. Como é que aquilo era abraçar o mundo? Não era essa a ideia deles.

Foi quando decidiram que só havia uma pessoa que lhes podia responder a isso, o avô João.

E foram a correr ter com ele. O avô João estava sentado com o seu chapéu de palha e a jogar palavras cruzadas quando eles o viram:

- Avôôôô, precisamos de te fazer uma pergunta. - Gritaram os meninos assim que o viram.

- Que gritaria é essa? Acalmem-se primeiro e eu depois respondo a tudo o que vocês quiserem.

E os meninos explicaram ao seu avô o seu sonho, que tinham ido falar com o Sr. Zé e a D. Maria, mas que não tinham percebido nada da resposta deles.

O avô sorriu, tinha um orgulho tremendo nos netos e adorava que eles tivessem aquele sonho, porque, há muito, muitos anos, também ele o teve e explicou-lhes:

- Meus queridos netos, tudo aquilo que o Sr. Zé e a D. Maria vos disseram é a mais pura forma de abraçar o mundo. Também eu todos os dias abraço o mundo quando vou à padaria comprar pão fresco para a avó, quando lhe leio um livro ou quando vos vejo a chegar a casa vindos da escola.

Os meninos continuavam sem entender. E o avô percebendo a cara de espanto dos netos continuou:

- Abraçar o mundo é quando tratamos com amor aquelas pessoas que são o nosso mundo. Vocês, a avó Zeza, o vosso pai ou a vossa tia. Porque se tratarmos bem o nosso mundo, se cuidarmos dele, se soubermos que fizemos alguém feliz com as nossas acções, ou simplesmente com um sorriso, dentro de nós há uma explosão de felicidade. Isso é abraçar o mundo, o meu mundo.

Os netos sorriram um para o outro e correram a abraçar o avô João. Sabiam que ele era um sábio, mas aquilo era mais que isso, ele tinha-os ajudado na missão: agora já sabiam como abraçar o mundo.

À noite, quando chegaram a casa e viram-os pais carrancudos, disseram-lhes: - hoje abraçáms o mundo e sabemos como o podemos abraçar todos os dias. Mas temos pena que vocês não queiram abraçar o mundo connosco.

Os pais olharam para os filhos sem perceberem nada, pois na cabeça deles era mais uma ideia disparatada.

Só que aqueles meninos sabiam que naquele dia, abraçar o mundo, o deles, só dependia deles próprios. E sorriram."

Quando a menina acabou de contar a história, sorriu e adormeceu.

A avó levantou-se, beijou-lhe a testa e agradeceu. Sabia que tinha passado à neta o melhor que existe no mundo, o amor. E que abraçar é a forma maior de mostrar esse amor.

E sorriu, sabendo que nunca iria esquecer aquela história.

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