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É possível viver para além disto!

É possível viver para além disto!

"Como fui capaz de os deixar viver naquela casa?"

05
Out19

A ausência do blog deveu-se a muitas causas, mas acima de tudo precisei de estar comigo, de perceber realmente o caminho que estou a seguir e limar arestas.

E quando pensamos que estamos no caminho certo, quando (finalmente) nos sentimos bem e tranquilos com nós próprios, surge algo que nos vem tentar. Pôr-nos à prova se realmente conseguimos manter-nos neste caminho ainda que apareçam pedras, buracos, barreiras...

No último post que vos escrevi falava do quanto as séries e os filmes nos influenciam e acabei a falar de um filme, quando, na verdade, vos queria falar de uma série: Big Little Lies.

Para quem não sabe, a série fala de três mães que têm aparentemente a família perfeita, mas um assassinato vem demonstrar que afinal...talvez não seja bem assim. 

Só que uma dessas mães é vítima de violência doméstica e o homem assassinado é o marido agressor. 

Durante as cenas de agressão, a mãe pensa sempre que os filhos pequenos nunca assistiram a nada, que pensam que ali só existir amor e que a morte do pai foi um (in)feliz acaso. Mas com a morte do marido, percebe que as coisas não são bem assim. Vê os filhos a serem violentos, a terem comportamentos incorrectos e descobre também que, inclusive, filmaram uma cena em que ela estava a ser agredida.

Conto-vos isto porque numa das últimas cenas em que aparece na temporada 2, esta mãe ao falar com uma amiga faz a seguinte pergunta: "como é que eu deixei que os meus filhos vivessem naquela casa?c".

E esta pergunta ficou-me na cabeça. Porque com a terapia eu também me comecei a questionar (não enquanto mãe, mas enquanto filha) como pude viver naquela casa, como é que alguém me deixou viver num ambiente agressivo. E também com a terapia percebi que não havia resposta para a minha pergunta. Ou pelo menos não a resposta que eu queria obter. 

Mas mesmo assim tentei. Um dia questionei a minha mãe sobre o que a fez manter o casamento durante tanto tempo, a resposta foi que achava que devíamos (os filhos) ter uma família, que ela não teve e que não queria que crescêssemos com o estigma de pais divorciados.

Naquele dia não lhe disse, aliás, até hoje eu não lhe disse, mas não acho que aquilo que me disse seja realmente a verdade. Aparentemente é um motivo altruísta, mas na verdade é extremamente egoísta, pois sempre pedi que se divorciassem. Sempre disse que não dava mais (e recentemente, fiquei a saber que o meu irmão também o pedia!).

Por isso, o motivo sempre foi egoísta. O amor obsessivo que sentia pelo marido, ainda que agressor, e, talvez, o facto de não ter tido uma família que a apoiasse, levaram-na a ficar. 

E ainda que eu saiba que a minha mãe sofreu (e ainda sofre), que tem marcas muito profundas do passado, não consigo entender como é que "foi possível deixar os filhos viverem naquela casa". 

E eu sou apenas a filha que quer compreender tudo o que passou. Sou apenas a filha que respeita o sofrimento da mãe, mas que também tem o seu próprio sofrimento e as suas marcas.

A filha que por mais perguntas que gostasse de fazer, sabe que não há respostas para o que se passou. E resigna-se. Apenas quer que o passado seja um exemplo do que não deverá ser feito no presente e no futuro.

Se dói? Há dias em que dói mais que outros. Há dias em que é tão fácil esquecer o que se passou e viver sem dor. Há momentos, frases, situações que mexem connosco de uma maneira que não esperávamos. Nós mudámos, eu mudei, mas as pessoas à minha volta não mudaram, não acompanharam a minha evolução e isso muda tudo. A minha forma hoje de ver as coisas é bastante diferente de há uns seis meses atrás. A minha forma de estar na vida hoje é serena, tranquila, sem raiva, sem sentimentos negativos.

Aprendi (ou decidi) que na minha vida só quero paz, amor e respeito.

Se não tiver isso, se não sentir isso, prefiro ficar sozinha, comigo própria, porque consigo.

Hoje sei que consigo. 

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