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É possível viver para além disto!

É possível viver para além disto!

Dar sem receber

21
Out19

Ao longo da minha vida, por não ter uma família que se amasse em casa, procurei do lado de fora da porta a minha família. 

Mas acreditem que, no meu intímo, sempre quis que a minha família, a de sangue, fosse realmente UMA família.

Fui conhecendo pessoas, criando amizades, mas algo em mim me dizia que não chegava. Por outro lado, em relação às pessoas de quem eu mais gostava, com quem me sentia melhor e me identificava mais, os meus pais arranjavam sempre alguma coisa com que implicar, fazendo (na maior parte das vezes) com que me afastasse. 

E isso doía tanto. Não tinha em casa o amor que precisava sentir (que hoje sei que precisava sentir) e quando tinha fora, os de dentro tentavam afastá-los.

Isto para vos dizer que, ao longo da minha curta vida, tive (e tenho!) bons amigos. Alguns, mesmo com tudo o que aconteceu com os meus pais, mantiveram-se.

Outros foram-se perdendo pelo caminho. 

Não é fácil quando nos queremos sentir amados e não somos. Ou não sentimos. 

Não é fácil quando temos tanto para dar e cuidar e não o podemos fazer.

Por isso, hoje que tenho ao meu lado OS verdadeiros tenho uma necessidade tremenda de cuidar, de proteger, não de agradar, mas de dar. Quero, as pessoas de quem mais gosto, felizes. 

Só que também é difícil dar, pelo menos, como eu gosto de dar, sem que as outras pessoas se interroguem verdadeiramente sobre as minhas intenções.

Por outro lado, a vida tem-me posto à prova quanto às Amizades. E nem sempre é fácil lidar com o afastamento das pessoas a quem nos demos verdadeiramente. 

E isso deixa-me, muitas vezes, em baixo. 

Questiono-me se o problema sou eu. Se a amizade que aparentemente era verdadeira, deixou de o ser, do nada. 

Se era verdadeira unilateralmente, enquanto precisavam da minha ajuda e depois quando deixaram de precisar, a amizade deixou de ser útil.

E assim quando há uma discussão ou um desentendimento com alguém que me é realmente próximo, acabo por sentir que "é o fim do mundo". Que já não há volta a dar. Que aquela pessoa vai embora, que não quer saber mais, etc., que afinal eu não sou suficientemente "importante" para resolvermos as coisas e que tudo fique bem. 

Ou seja, numa discussão ou desentendimento que podia ser algo passageiro, transformo, por vezes, aquele momento num sofrimento de uma dimensão exagerada.

E eu, por muito que trabalhe nesse sentido, sei que o caminho ainda é longo.

E se antes não pedia ajuda, por vergonha, hoje sei que sem essa ajuda não conseguirei olhar para os desentendimentos/discussões como algo normal numa relação entre duas pessoas. 

Não consigo perceber (ainda) que apesar de se discutir, de nos desentendermos, que não é o fim do mundo. Que às vezes as opiniões são diferentes, que os estados de espírito mudam, que os planos alteram. Saber gerir expectativas é o meu próximo passo. 

Até lá, vou tendo altos e baixos.

Baixos em que tenho que assumir que me magoei pelas atitudes que tiveram comigo e que magoei outras pessoas de quem gosto pelas minhas atitudes. 

Baixos em que tenho que conseguir parar e reflectir onde posso melhorar. 

E um dia, quem sabe, esses baixos tornar-me-ão uma pessoa melhor, mais compreensiva, menos exigente. E, para além de tudo o resto, isto é mais uma coisa em que sei que tenho que melhorar.

Posso querer dar tudo, sem querer receber, mas se depois exijo, tenho atitudes imaturas ou incompreensivas, se não sei gerir expectativas, o meu dar é irrelevante.